Pensaram que sou repetitivo? Que eu mandaria de novo meu filho, pra fazer o serviço? Todo estressadão, de camisolona, barbudo e tals… Pra apanhar feito um FDP, depois ser pregado na cruz? Então, tô louco, então? Claro que não, seus abestados! Desci à terra eu mesmo. E brasileiro, mas em época de vacas gordas, óbvio! Tesudo, bonitão, virei ator global. Claro, seus bocó! Tão falando comigo, sim. Olha se eu não sou um VERDADEIRO DEUS! Bom, as ateias podem me chamar simplesmente REY!
‘PRIVATIZAÇÃO’ DE PRESTES Vs CULTO À PERSONALIDADE
Rolou um piti pequeno burguês na seara comunista. Anita Leocádia, filha de Luis Carlos Prestes e Olga Benário, ficou boladona com o fato do PCdoB ter inserido seus pais no seu Programa que foi ao ar na TV, na noite de 20 de outubro. Cuspindo prego, ela escreveu carta ao Comitê Central, acusando o Partido de apropriação indébita da imagem de seus pais. E pegou pesado, não apenas com essa exigência de ‘patente’ do patrimônio histórico do comunismo no Brasil, mas insinuando coro com a matilha que prejulga, condena e calunia os quadros do PCdoB; esculhambou geral. É verdade que Prestes jamais apoiou o PCdoB. Eu quase caí da cadeira quando vi o programa. Há poucos meses, ouvi de historiadores do Partido que Prestes, à época do racha político-programático de 1962, que daria origem às duas siglas, PCB e PCdoB, não poupou energias em atacar ferozmente seus, até então, camaradas, que ora rompiam com o grupo do ‘Cavaleiro da Esperança’. Faziam-no por discordarem dos rumos do Partido Comunista na URSS – apontavam os desvios desse em relação ao marxismo-leninismo, sua transformação em potência imperialista, tão condenável quanto à que deveriam combater, sua publicidade belicista e cada vez mais distante da construção da igualdade social baseada em justiça e solidariedade.
O próprio Prestes, anos depois, viria atacar o PCUS, admitindo que a organização havia abdicado da luta revolucionária, abraçando o reformismo. Mas naquele início dos anos 60, ele tava era uma arara de tão brabo! Foi, no berro e num montão de cartas e documentos, valendo-se de sua popularidade junto ao movimento comunista internacional, chamar de traidores: João Amazonas, Maurício Grabois e todos os demais comunistas que os acompanharam nesse movimento de desvinculação da linha soviética. É esse um dos motivos que me levam a opinar que foi de mau gosto incluir o cara no Programa do PCdoB. O que ele tinha de corajoso, tinha de personalista e oscilante. Nos anos 30, esteve entre os líderes da intentona comunista que, aplacada, serviu de pretexto para a barbárie do Estado Novo de Getúlio Vargas que, dentre outros ‘feitos’, levou a mãe de Anita Leocádia, grávida da própria, à tenebrosa morte num campo de extermínio nazista. Pois o mesmo Prestes, em 1950, aparece puxando voto pro ditador de décadas anteriores, o ‘Pai dos Pobres’!
Pois bem, a luta política deve estar acima de sentimentalismos ou de laços familiares. Estranho sua filha historiadora não relembrar o episódio e o raciocínio aplicado pelo pai. É uma desonra à sua memória que, ao contrário disso, em 2011, venha requerer, em nome da consangüinidade, que o uso da figura histórica de Prestes submeta-se a uma espécie de posse familiar; lógica consensual para o modelo familiar pequeno-burguês e tosca para o fato ao qual se aplica. Afinal, se o Partido Comunista do Brasil foi criado em 1922 e subdividiu-se apenas em 1962, esses 40 anos de vitórias ou vicissitudes compartilhadas compõem um patrimônio histórico comum do movimento comunista do Brasil.
Ainda assim, acho que o PCdoB pisou na bola adotando aquela fórmula de apresentação das glórias do passado, em que faz questão de destacar personalidades. No marqueteiro objetivo de destacar figuras conhecidas do público, desvia-se de conceitos prático-teóricos que domina como ninguém. O culto à personalidade deve ser sistematicamente evitado e combatido, pois a indicação de ‘heróis’ encobre o fato inegável de que a essência dos movimentos sociais está na participação coletiva, é fruto do esforço comum, compartilhado por centenas ou milhares de anônimos, unidos no ideal comum da superação do capitalismo. Muita gente sabe – e o PCdoB, decor -, que o motor da história é a luta de classes, não o brilhantismo individual de um líder (talvez imprescindível, mas insuficiente, para que haja grandes e efetivas transformações sociais).
Apostasse, no Programa Político na TV, nas honrosas lutas sociais, do glorioso ano de 1922 aos dias atuais, e não teria que enfrentar a saia justa com Anita Leocádia, quiçá, teria como efeito maior empatia junto ao público. Relembrar os motivos pelos quais os modernistas se encantaram com o nascimento desse irmão contemporâneo acrescentaria mais informação do que estampar Pagu; destacar o entrelaçamento entre a luta comunista e a estética realista, revelaria, por si, a paixão que movia Jorge Amado, Graciliano Ramos, Portinari e tantos outros pela transformação social; pontuar o heroísmo dos semi-anônimos mortos na guerrilha do Araguaia, a chacina da Lapa, a tortura, o exílio, o desmonte e prisão no Congresso da UNE em Ibiúna, destacariam a história de resistência e coragem, na luta contra o autoritarismo no período da ditadura; retratar objetivamente os quase 90 anos, como período em que, apesar de alternâncias sucessivas entre legalidade e clandestinidade, a participação dos comunistas em assembléias constituintes, sempre se deu em defesa do que há de mais avançado no campo dos direitos sociais, mostraria sua ousadia e sua coerência: esteve sempre ao lado dos oprimidos, combatendo desmandos, defendendo a soberania, gritando contra a exploração capitalista e, também, contra a corrupção.
Por fim, se era para dar destaque pessoal a algum de seus líderes, o PCdoB poderia ter concedido mais que os quase 2 minutos para focar Orlando Silva. Sua biografia, de menino pobre que trabalhou desde a infância, chegou com dificuldades ao ensino superior e foi o primeiro presidente negro na UNE, soaria mais alto que a homenagem aos igualmente louváveis comunistas militantes de décadas passadas. A exibição de dados que pusesse em relevo o seu legado frente ao Ministério dos Esportes, com reflexos de largo e positivo alcance, talvez não o sustentasse no cargo, mas seria mais contundente em termos de defesa contra calúnias que lhes foram desferidas -, indicando, adicionalmente, porque seu posto se tornou tão disputado – do que seu discurso doutrinário de que provaria que não pactuou com mal feito. Acho eu, imodestamente…
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QUE SAUDADES DO ÁUREO E DA PIRULITONA!
Faz tempo que a Groba ensaia, anuncia, tenta, mas deixa morrer na praia um desfecho realista para seus personagens gays nas novelas. Anos faz, com olhar de pesquisadora, estive atenta à forma como trata os temas sociais e mais precisamente as relações entre pobres e ricos.
Com pessimismo, conclui que a descontextualização de fatos históricos, a naturalização das desigualdades e a reprodução de estereótipos que glorificam a riqueza, a busca da ascensão social, nos moldes da sociedade vigente, amarram até mesmo (ou principalmente) as tramas anunciadas como ‘retratos fiéis’ da luta por reforma agrária, da trajetória sofrida dos imigrantes, das mazelas da escravidão. Que a deformação, o desenho caricato e/ou ultrasimplificado de pertinentes temáticas sociais, ao sabor da liberdade irrestrita das ‘obras’ de ficção, reforçam-nas mais do que as desvendam ou denunciam.
Não sei se o mesmo se dá no que se refere à abordagem da homossexualidade e não teria referências suficientes para fechar questão a respeito. Só sei que o pouco que assisti ‘Morde e Assopra’, foi em função dos carismáticos Áureo e Elaine (Pirulitona). A aparente inverosimilhança de cada um deles – o primeiro é homossexual, mas engravidou a atraente melhor amiga, o segundo, heterossexual, traveste-se de mulher para fugir das ‘garras da lei’ e, em que pese desajeitado e teatral, seduz ao menos dois solteiros, em aberta disputa por seu ‘coração’ – parece abrir idealmente o caminho para a compreensão de que o universo da sexualidade não segue, necessariamente, tipificações previsíveis, num conjunto limitado de possibilidades.
Da aparente falta de pretensões, eis que brotam as condições ideais para que, no último capítulo, não tenham sido necessárias ‘conversões’ desses personagens, nem dos que por eles se apaixonaram, em viadinhos discretos e solitários ou super machões que pegam mulher. Com claras referências ao cinema, particularmente o filme ‘Priscila, a rainha do deserto’ e ao som de Glória Gaynor, o que dispensa diálogos, o desfecho não poderia ser melhor.
O palco, o glamour, o brincar de viver encontram abrigo no aplauso e na alegria da platéia; simbolicamente, tabus e preconceitos podem ser quebrados quando ninguém se leva tão a sério a ponto de precisar patrulhar a vida alheia e, de outro lado, o senso comum, com seu peso avassalador, nem sempre é capaz de aniquilar a essência ou os desejos de quem quer que seja. Áureo e Elaine me divertiram e me despertaram, caricatos ou reais, deixarão saudades. I Will survive?!
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NOSSO SUOR SAGRADO É BEM MAIS BELO QUE ESSE SANGUE AMARGO
Não bastasse o inferno astral, o vazio político, o luto ideológico, toca sonhar com amor antigo? Hoje, nessa manhã tão linda, não lembrei que completam 15 anos que Renato Russo se foi. As ruas têm cheiro de gasolina e óleo diesel, por toda a plataforma e nelas, tínhamos chorado a derrota do Diretas já, e nos abraçado pelo fora Collor.
Por esses tempos sonhei, amei, casei e amigavelmente me divorciei. Mas não poupei o que restava de minha juventude de um devastador outono. Já não pensava nisso, mas hoje despertei de um sonho ruim, que me levou de volta ao tempo em que, “quando percebi, já não sabia mais ter esperanças”, como diria Fernando Pessoa – ao qual, não raras vezes, comparei a poesia em forma de música de Legião Urbana. Debati-me num daqueles pesadelos que se arrastam, tanto quanto se arrastou em minha memória um amor secreto, platônico e impossível. Não foi um grande amor, foi apenas longo. E torturantemente inútil, posto que o que tem por base as idealizações, na política e nos sentimentos, nada acrescenta, senão pessimismo e amargura.
Pois eis que esse ser amaldiçoado do passado ressurge, aparentemente do nada. Por ironia, ele, profeta da barbárie, que zombara de minha juventude, aparecia remoçado no mau sonho! E a caçoar da atual derrocada de minhas esperanças revolucionárias; a duvidar jocosamente da validade das minhas lutas inglórias; a rir de minhas rugas e das madrugadas em que, arquitetando o futuro, sob seu ponto de vista, não vivi. Somente agora faz algum sentido isso tudo. Num certo 11 de outubro em que boa parte da minha geração relembrou, lamentou e homenageou a perda de um de nossos grandes poetas-roqueiros, engoli soluço e choro, por auto-censura, lado a lado que estava, de, então, ‘idolatrada figura’; protagonista de incontáveis decepções e descontentamentos aos que insistiam em cultivar esperanças e autenticidade, e, particularmente esta noite, desse meu sonho totalmente flash-back-de-mau-gosto.
Afortunadamente, amadureci. Vivo do riso diário próximo ou distante e de saber que tenho um monte de livros que não terei mesmo tempo de ler. Não temos todo o tempo do mundo! Não comecei a colecionar gatos, pois sou alérgica, mas não jogo fora, por nada, a minha coleção de bottons de campanhas estudantis ou sindicais. Nem a de camisetas “chapa 2 – oposição”, da gloriosa virada dos anos 80 para os 90. E, no fundo, sei que esse eterno velho ainda há de mirar o seu labirinto de espelhos e, lembrando-se de mim, irá sussurrar: “Uma menina me ensinou quase tudo o que eu sei…”.
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ALÔ CRIANÇADA, O CIRCO MICHOU
Primeira vez de um como prefeito; Primeira vez de outro como secretário. À toda ação, corresponde um efeito: alguém paga o pato e a onda de otário.
Liberou o circo, caiu em desgraça! Nosso rapaz pecou, foi pura ingenuidade: botou concorrência direta na praça, pros velhos novíssimos donos da cidade!
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TUDO QUE DILMA DIZ, EU FAÇO; BEIJOU ALCKMIN? EU ABRAÇO
Desmoralizados FHC e Serra, simbologias máximas da sanha privatista e da arrogância e personalismo, consigo ver por outro ângulo outras lideranças do PSDB. Confio em Dilma e comemoro o reconhecimento, declarado recentemente, de que o governador do estado de São Paulo é um bom parceiro para implementação de metas políticas do governo federal.
Outro dia sonhei que Mercadante havia sido eleito governador em 2010. Delúbio teria cargo de destaque, Genoíno dolar na cueca, também. E, obviamente, Silvinho Land Rover Pereira, idem. Fora outros aloprados. Eles continuariam com as “manias de sempre” e isso teria desastrosos reflexos, trazendo desmoralização ao governo Dilma, tirando-lhe o foco. Ufa! Foi só um pesadelo!
Dei-me a tarefa de examinar os programas partidários das principais siglas no “tabuleiro” – DEM (ex-PFL), PMDB, PSDB e PT – e as respectivas personalidades que atualmente lhes refletem e representam. É muito fácil compreender que há mais afinidades entre PT e PSDB e, no outro extremo, entre DEM e PMDB. A primeira dupla mira a social-democracia e tem em suas fileiras, ex-exilados políticos, defendores da democracia, ideólogos de políticas sócioeconomicas que sintetizam soberania nacional e desenvolvimento independente. A segunda dupla, destaca-se pela alta concentração de políticos que, valesse a Lei da “ficha limpa”, nem se interessariam mais em viver no Brasil (e certamente têm reservas em paraísos fiscais que lhes garantam alegre auto-exílio). Uma quantidade evidente e assustadora de participantes ativos dos governos militares (1964-1985), vale dizer: a escória anti-democrática, que se oporá até o último suspiro à elucidação do obscuro período, da tortura e outros crimes dos anos de chumbo; e, ainda mais ferozmente, contra uma verdadeira reforma agrária; sairá às ruas, se preciso for, contra a regulamentação da mídia (que claramente representa a elite que sonha com o neofeudalismo); mais fácil arquitetarem um golpe, engolirem o mandato Dilma, do que colaborarem para uma reforma política que destroce currais eleitorais, ou reforma fiscal que sobretaxe grandes fortunas.
Nem só de pesadelos eu vivo. Idealista, inocente, ingênua, sonho que se o melhor do PT souber traçar alianças com o melhor do PSDB, próximos estaremos de um Brasil com exemplar e sólida social-democracia. Sobre socialismo, prefiro nada mencionar. A ideologia do capitalismo nunca esteve tão forte em nosso país. A “massa” aprendeu com políticos de todos os matizes que o poder corrompe, que coerência não consta mais dos dicionários e que, bom mesmo, é pleno emprego e poder de compra.
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AS FERIDAS ABERTAS DA AMÉRICA LATINA: O 11/09/1973 NO CHILE
Depois de ter as mãos esmagadas a coronhadas, Victor Jara ouviria do oficial que dava ordens aos torturadores: “¡A ver si ahora vas a tocar la guitarra, comunista de mierda!”. O golpe militar liderado pelo General Augusto Pinochet flagraria o Presidente socialista Salvador Allende no Palácio Presidencial de La Moneda. Acossado por tropa militar pronta para o bombardeio à sede do governo, naquele 11 de setembro de 1973, escolheu, ali mesmo, o suicídio a se render. Victor Jara, 40 anos, integrante do Partido Comunista do Chile e embaixador cultural do Governo da Unidade Popular, foi surpeendido pelo bando armado na Universidade, onde lecionava jornalismo; contribuia notoriamente para consolidar o socialismo, como músico, cantor, teatrólogo e ativista político. 
Levado como milhares, naquele dia, para campos de futebol, convertidos, então, em presídios assolados por show de horrores, seria longamente supliciado fisica, moral e psicologicamente. As bárbaras torturas perpetradas contra o povo chileno, que militava em prol do socialismo no poder, no caso de Victor Jara, transboradavam o ódio remoído pela corja fardada, patrocinada pelo Pentágono no auge da guerra fria; tinham sabor de punição exemplar e de revanchismo à sua arte, popularidade e ousada convicção. Por razão óbvia: tudo nesse herói popular estava emblematicamente voltado ao fim da desigualdade e sintetizava a força e ternura conquistadas naquela nação, rumo à construção do sonho anti-capitalista. No teatro, desde meados dos anos 50, Jara já imprimira suas convicções, dirigindo peças voltadas à conscientização política e à popularização da arte dramática. Mesmo antes da chegada de Allende ao poder, já atuava comprometido definitivamente com a causa socialista, com a envergadura de quem havia posto em primeiro plano as canções de protesto e o movimento ‘Nueva Cancion’, que dava relevo ao que genuinamente representava a cultura musical chilena. Ele fora o vencedor do Primero Festival da Nova Canção Chilena, em 1969, com ‘Plegaria a un labrador’, em que, na forma de prece, tece o sofrimento e a fé em dias melhores, almejados pelo campesinato. E o faz com conhecimento de causa, tendo ele próprio nascido de família pobre de trabalhadores no campo, geradores de riqueza, provedores diretos de alimentos, e paradoxalmente, explorados e miseráveis, onde quer que reine a sociedade movida pelo lucro.
‘Te recuerdo, Amanda’, outra canção premiada e muito popular, que já no título homenageia sua mãe, que tinha esse nome, denuncia em forma de poesia, as condições duramente suportadas por trabalhadores chilenos, muitos deles expostos à fatalidade – como o clássico caso de trabalhadores em minas, os carvoeiros: “Te recordo, Amanda, A rua molhada. Correndo à fábrica Onde trabalhava Manuel. O sorriso largo. A chuva no cabelo. Não importava nada. Você foi ao encontro dele. Com ele, com ele, com ele, com ele. Que partiu para a serra. Que nunca cometeu erros. Que partiu para a serra, e em cinco minutos foi destruído. Soa a sirene, de volta ao trabalho. Muitos não voltarão, tampouco Manuel.” (traduzido do original, em espanhol).
Por longos 5 dias e noites foi torturado, no Estádio Chile, que atualmente leva seu nome, antes de ser assassinado, em 16 de setembro de 1973, e ter seu cadáver, desfigurado, atirado na rua, em bairro da periferia de Santiago. À viúva caberia o reconhecimento do corpo e as providências para um enterro realizado em meio ao medo e ao nevoeiro que se espalhavam pelo país e que encobriam de modo particularmente cinzento a capital. O jornal El País [‘La muerte lenta de Víctor Jara’], em 2009, trouxe testemunhos inéditos a respeito desses acontecimentos, na ocasião em que houve a exumação de cadáver do Presidente Allende e de outras vítimas da repressão política e no Chile reascendia-se a discussão sobre os anos de chumbo.
O Chile figura como uma experiência excepcional, posto que o governo era ocupado, na ocasião do golpe militar, por partidários do socialismo. Mas a América Latina toda – o Brasil, desde 1964 – a partir de algum daqueles tristes anos entre a década de 60 e início da de 70, experimentaria o terrorismo de Estado, sob as esmagadoras botas de generais. Em todos esses países, pseudo-democracias sustentadas pelo governo norteamericano e exercidas por militares, calaram o povo e intentaram derrotar o “fantasma” do comunismo, e sob tal pretexto, ultrapassaram – em número e em proporções – todos os limites em direção à barbárie, crueldade e ultraje à dignidade humana, contabilizando crimes que raramente foram examinados e punidos à altura, mesmo após encerradas as respectivas ditaduras. Natural que o povo norteamericano chore o seu 11 de setembro. As minhas lágrimas caem nesta data. Não pelas Torres Gêmeas, mas pelas milhares de atrocidades que caracterizam e sustentam o imperialismo. Choro por Victor Jara e pelo 11 de setembro de 1973 no Chile. Pelas feridas abertas de nossa América Latina.
(*) A canção feita em homenagem a Victor Jara, postada e traduzida logo a seguir, é belíssima, vale a pena ouvi-la:
Plegaria por Victor Jara (Tony Osanah / Enrique Bergen)
“Firme como el Ande, duro como fue tu final; gesto vital, tu canción. Tus manos no mueren: machacadas son un candil, motivan mas que el fusil. Las palabras siguen, no se puede el rio parar, no. No para nunca, nunca; arrasa todo, grita, su himno a la libertad. Te recuerda Amanda, Todas la Amandas en flor, recuerdaran a su cantor; Los tiranos pasan, los poetas siguen de pie, no se asesina la fé. Las palabras siguen, no se puede el rio parar. Tu canto es un rio, que baja bravio camino a la libertad.”
Prece a Victor Jara (livre tradução)
Firme como os Andes (Cordilheira), duro como foi teu final; gesto vital, tua canção. Tuas mãos não morrem: esmagadas são um candeeiro, motivam mais que o fuzil. As palavras seguem, não se pode o rio parar, não. Não para nunca, nunca; arrasa tudo, grita, seu hino à liberdade. Te recorda Amanda, Todas as Amandas em flor, relembrarão seu cantor; Os tiranos passam, os poetas seguem de pé, não se assassina a fé. As palavras seguem, não se pode o rio parar. Teu canto é um rio, que desce indomavelmente a estrada, caminho à liberdade.
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HÁ DEZ ANOS A CIDADE QUER SABER: QUEM MATOU O PREFEITO?
O noticiário da noite de 10 de setembro de 2001 não condizia com a suavidade que a temporada pré-primaveril coloria o céu das tardes em Campinas. Como um corte frio, sem volta nem nuances, anunciava: o prefeito Antonio da Costa Santos, o Toninho do PT, fora encontrado morto a tiros no interior de seu carro. O dia que se seguiu, pelo acontecimento de repercussão internacional, nos EUA, foi de transe. Grande parte da população não faria o cotidianamente esperado, optando por engrossar um perplexo e comovido adeus à carismática e ousada autoridade recém aniquilada. Incrédulos e inconsoláveis estavam todos os que o acompanharam ao longo de sua militância, com destaque para a corajosa atitude de enfrentamento, quando, na condição de vice-prefeito e secretário de obras, não se furtou a denunciar, em 1991, os desvios de rumo do governo eleito por seu partido, para dirigir a cidade, em 1988: abandonou seus cargos, após denunciar superfaturamento em contratos, que fizeram Jacó Bittar – um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores – corar diante da cidade e ir se abrigar noutra legenda.
O episódio destroçou parcela importante da esquerda na cidade
Um gesto necessário, com custo político alto a se pagar. E a sucessão de prefeitos do campo político-partidário conservador que se beneficiaria, a partir de então, é apenas um indicativo do retrocesso que atingiria Campinas, antes, orgulhosa por ter sido cidade oposicionista ao longo da ditadura militar, onde nunca se elegeu prefeito da “Arena”. O Bittar do PDT ou do PSB nunca mais seria bem visto – por sua própria obra, convertido em “vilão” – pouquíssimo tempo depois, revelar-se-ia sem fôlego para retornar à linha de frente na vida política. Já o arquiteto sonhador e persistente, passada uma década, ganhara mais que a aura de político ético e comprometido com as causas sociais, com as parcelas pobres da cidade rica. Ao vencer as eleições em 2000, com 59,7% dos votos válidos, quase ninguém se lembrava dele como o vice de Bittar. Encarnava a esquerda renovada, atuante e esperançosa, cansada de gestões municipais alinhadas às elites e fiéis à voga neoliberal. Quem assistiu à finalização da contagem de votos no Ginásio da Unicamp e viu o eleito em meio a bandeiras vermelhas e verde-amarelas, carregado por tantos braços, pela verdadeira multidão que lotava o lugar, mal podia acreditar que agora restava velá-lo.
E a poeira do atentado em 11 de setembro…
…tão distante, parece ter encoberto o que acontecia aqui, para sempre. As investigações sobre a morte do prefeito de Campinas não levaram à elucidação do caso; ao contrário, tornaram-na enigmática e inverossímil. O tempo voando, provas evaporando e uma sucessão de contradições, mortes e multiplicação de dúvidas, acompanhadas do decréscimo da credibilidade. Embora o juiz José Henrique Torres, responsável pela primeira denúncia encaminhada pelo Ministério Público, afirmasse não haver provas suficientes para levar a júri Wanderson Nilton de Paula Lima, conhecido como Andinho, prevaleceu o registrado no processo: o traficante fugia da polícia quando disparou contra o carro de Toninho. Motivo: o prefeito dirigia em baixa velocidade, atrapalhando a suposta fuga. Três pessoas acompanhavam Andinho, apurou-se. Logo em seguida, estas foram mortas em um conflito com policiais de Campinas em Caraguatatuba, litoral paulista. Andinho foi preso pelos crimes de sequestro, formação de quadrilha e latrocínio, na Penitenciária de Presidente Bernardes-SP.
Um crime político, lamentável, impune
A família e a maior parte da população rejeitam, desde então, a tese de crime sem motivações políticas. Foram reabertas as investigações, em novembro do ano passado (2010), a custo de batalha incansável, encabeçada pela viúva de Toninho. Não basta. Implora-se para que a Polícia Federal assuma as investigações, tal como deveria ter sido há dez anos, ainda que, obviamente, as condições atuais de se chegar, finalmente, à verdade dos fatos, estejam distantes e diminuídas, pelos implacáveis 10 anos de mistério, impunidade e revolta. E saudades.
“Quem perdeu o trem da história por querer, saiu do juízo sem saber, foi mais um covarde a se esconder, diante de um novo mundo. Quem souber dizer a exata explicação, me diz como pode acontecer, um simples canalha mata um rei, em menos de um segundo. Oh! Minha estrela amiga, por que você não fez a bala parar?” (Canção do novo mundo, Beto Guedes)
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LIBERTA-TE, PÁTRIA AMADA! NÃO FUJO À LUTA POR TI, BRASIL!
Nasci com pressa e desobediente,
na mais bela das pátrias, conhecida por ser gentil;
lutei, luto e lutarei incansavelmente,
pra que um dia ela brilhe, triunfe e deixe de ser servil.
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NO QUARTO COM ZÉ DIRCEU
A revista Verja quis invadir a privacidade de José Dirceu. Absurdo! Repórter tentou adentrar o quarto dele. Grave! Mas como diz a sabedoria popular, não se pode dizer dessa água não beberei, ou melhor, confesso que eu mesm, podendo, daria uma espiadinha, uma invadidazinha, uma revistadazinha. É que eu nasci em época errada e tem muitas coisas que mudam com o tempo. Eu, por exemplo, se já fosse gente em 68, se já fosse repórter… Vixe! que eu nem esperava a Verja me mandar! Olha a foto dele quando ele era Zé Dirceu, digo, quando era líder estudantil. Eu brinco em serviço? rs.
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