Casseta e Planeta vai fundo pro inferno! (Pra não dizer vai fundo pra pqp!). Essa resenha é, como sempre, irresponsável, porque eu naturalmente não assisti. Diz o politicamente correto, que se eu não assisti, não deveria opinar. Mas vou opinar justamente porque minha ojeriza ao (outrora) “humorístico”, ao incapacitar-me de assistir, revela, por si, o que provavelmente decretou a aposentadoria do perneta & capeta: a sua impropriedade, sua inadequação, num contexto político radicalmente transformado, se consideradas as figuras que encarnaram o poder presidencial nas últimas décadas no Brasil.
Do Reinaldo caricaturando o presidente Itamar, com o personagem Devagar Franco, dava até pra rir: uma fala exageradamente caipira retratava as gafes quase ingênuas daquele vice que virou presidente. Quem não se lembra da foto da mulher sem calcinha que posou abraçada a ele no carnaval? Viajando Henrique Cardoso, de Hubert – com a variante Enrolando Henrique Cardoso – flagrava um FHC em permanentes viagens autocentradas ao exterior. E era tragicamente cômico suportar o príncipe em seus suntuosos passeios pelo mundo, com um Brasil que se degradava em meio à aposta neoliberal. Mas a super manjada fórmula ‘sarcasmo versus poder’ só pode funcionar massivamente se a massa fizer eco. Acontece que, o que nos anos 90 funcionou como atrevimento, não se sustentou quando se consolidaram modificações profundas, que atingiram corações e mentes, fazendo da figura presidencial o corolário da verdadeira ousadia.
Como ridicularizar Lula? Pelo caminho óbvio e repugnante, atirando contra seus cacoetes de linguagem, de homem do povo? Relembrando sua precária escolaridade? Debochando de seu sotaque mezzo nordeste, mezzo ABC? Achincalhando a falta do dedo extirpado na linha de montagem? Na melhor das hipóteses, investindo em caracterizá-lo como bebum da vez: um tosco pingaiada? Apenas o mote faz-que-não-viu – que fragilizou a figura do presidente à época das denúncias que atingiram Zé Dirceu – parece ter frutificado. Mas a crescente popularidade da Era Lula, que se amplia, brindando e blindando Dilma, repele um humor focado na cena política que abandone o atrevimento e deixe ver sua máscara reacionária. O tal Marcelo Madureira é o mais abertamente raivoso, haja vista entrevistas dadas pelo próprio. Ao Manhattan Connection (Globo/GNT), supra sumo da direita, gritou calúnias contra Lula, que fizeram Diogo Mainardi gargalhar: “vagabundo, picareta, que não vale nada”. Pois é isso: os jovens do Casseta & Planeta, considerados geniais por alguns em sua crítica besteirol ao que sobrara dos milicos ou aos sofríveis protagonistas da Nova República, envelheceram.
A emissora que os produz pode ter interferido em sua capacidade criativa. Ou não. Sua própria verve preconceituosa, de classe média revanchista, somada ao (anteriormente mais disfarçado) horror ao que seja genuinamente popular, aposenta-lhes. A trupe é reacionária. A base do antigo sucesso não se manteve; inverteu-se, para ser mais exato. Nessa virada de jogo, temos um humor de elite, ultraconservador versus figuras presidenciais populares. Que agradaria hipoteticamente apenas os 23% que não curtem a presidenta. Até o falido Zorra Total tem tido mais sagacidade e sobrevive, em termos de audiência. A mensagem deste é igualmente reacionária (bate na tecla de que todo político é igual, todo político é ladrão e mentiroso etc.). Entretanto, seja por maior despretensão em relação ao público alvo ou por estratégia editorial de maior alcance, é menos indigesta que o ‘novo’ Casseta & Planeta, que já foi urgente. Não dá pra assistir. A era atual aposenta o humor reaça. Os autores desse lixo têm mesmo que se aposentar, pois se tornaram ressentidos velhos ranzinzas. É provável que Bussunda desse um bom imitador de Dilma. Ou então, quem nos fará rir de crítica bem humorada ao governo, ainda nem nasceu…









