AS FERIDAS ABERTAS DA AMÉRICA LATINA: O 11/09/1973 NO CHILE

Depois de ter as mãos esmagadas a coronhadas, Victor Jara ouviria do oficial que dava ordens aos torturadores: “¡A ver si ahora vas a tocar la guitarra, comunista de mierda!”. O golpe militar liderado pelo General Augusto Pinochet flagraria o Presidente socialista Salvador Allende no Palácio Presidencial de La Moneda. Acossado por tropa militar pronta para o bombardeio à sede do governo, naquele 11 de setembro de 1973, escolheu, ali mesmo, o suicídio a se render. Victor Jara, 40 anos, integrante do Partido Comunista do Chile e embaixador cultural do Governo da Unidade Popular, foi surpeendido pelo bando armado na Universidade, onde lecionava jornalismo; contribuia notoriamente para consolidar o socialismo, como músico, cantor, teatrólogo e ativista político.

Levado como milhares, naquele dia, para campos de futebol, convertidos, então, em presídios assolados por show de horrores, seria longamente supliciado fisica, moral e psicologicamente. As bárbaras torturas perpetradas contra o povo chileno, que militava em prol do socialismo no poder, no caso de Victor Jara, transboradavam o ódio remoído pela corja fardada, patrocinada pelo Pentágono no auge da guerra fria; tinham sabor de punição exemplar e de revanchismo à sua arte, popularidade e ousada convicção. Por razão óbvia: tudo nesse herói popular estava emblematicamente voltado ao fim da desigualdade e sintetizava a força e ternura conquistadas naquela nação, rumo à construção do sonho anti-capitalista. No teatro, desde meados dos anos 50, Jara já imprimira suas convicções, dirigindo peças voltadas à conscientização política e à popularização da arte dramática. Mesmo antes da chegada de Allende ao poder, já atuava comprometido definitivamente com a causa socialista, com a envergadura de quem havia posto em primeiro plano as canções de protesto e o movimento ‘Nueva Cancion’, que dava relevo ao que genuinamente representava a cultura musical chilena. Ele fora o vencedor do Primero Festival da Nova Canção Chilena, em 1969, com ‘Plegaria a un labrador’, em que, na forma de prece, tece o sofrimento e a fé em dias melhores, almejados pelo campesinato. E o faz com conhecimento de causa, tendo ele próprio nascido de família pobre de trabalhadores no campo, geradores de riqueza, provedores diretos de alimentos, e paradoxalmente, explorados e miseráveis, onde quer que reine a sociedade movida pelo lucro.

Te recuerdo, Amanda’, outra canção premiada e muito popular, que já no título homenageia sua mãe, que tinha esse nome, denuncia em forma de poesia, as condições duramente suportadas por trabalhadores chilenos, muitos deles expostos à fatalidade – como o clássico caso de trabalhadores em minas, os carvoeiros: “Te recordo, Amanda, A rua molhada. Correndo à fábrica Onde trabalhava Manuel. O sorriso largo. A chuva no cabelo. Não importava nada. Você foi ao encontro dele. Com ele, com ele, com ele, com ele. Que partiu para a serra. Que nunca cometeu erros. Que partiu para a serra, e em cinco minutos foi destruído. Soa a sirene, de volta ao trabalho. Muitos não voltarão, tampouco Manuel.” (traduzido do original, em espanhol).  

Por longos 5 dias e noites foi torturado, no Estádio Chile, que atualmente leva seu nome, antes de ser assassinado, em 16 de setembro de 1973, e ter seu cadáver, desfigurado, atirado na rua, em bairro da periferia de Santiago. À viúva caberia o reconhecimento do corpo e as providências para um enterro realizado em meio ao medo e ao nevoeiro que se espalhavam pelo país e que encobriam de modo particularmente cinzento a capital. O jornal El País [‘La muerte lenta de Víctor Jara’], em 2009, trouxe testemunhos inéditos a respeito desses acontecimentos, na ocasião em que houve a exumação de cadáver do Presidente Allende e de outras vítimas da repressão política e no Chile reascendia-se a discussão sobre os anos de chumbo.

O Chile figura como uma experiência excepcional, posto que o governo era ocupado, na ocasião do golpe militar, por partidários do socialismo. Mas a América Latina toda – o Brasil, desde 1964 – a partir de algum daqueles tristes anos entre a década de 60 e início da de 70, experimentaria o terrorismo de Estado, sob as esmagadoras botas de generais. Em todos esses países, pseudo-democracias sustentadas pelo governo norteamericano e exercidas por militares, calaram o povo e intentaram derrotar o “fantasma” do comunismo, e sob tal pretexto, ultrapassaram – em número e em proporções – todos os limites em direção à barbárie, crueldade e ultraje à dignidade humana, contabilizando crimes que raramente foram examinados e punidos à altura, mesmo após encerradas as respectivas ditaduras. Natural que o povo norteamericano chore o seu 11 de setembro. As minhas lágrimas caem nesta data. Não pelas Torres Gêmeas, mas pelas milhares de atrocidades que caracterizam e sustentam o imperialismo. Choro por Victor Jara e pelo 11 de setembro de 1973 no Chile. Pelas feridas abertas de nossa América Latina.

(*) A canção feita em homenagem a Victor Jara, postada e traduzida logo a seguir, é belíssima, vale a pena ouvi-la:

Plegaria por Victor Jara (Tony Osanah / Enrique Bergen)

“Firme como el Ande, duro como fue tu final; gesto vital, tu canción. Tus manos no mueren: machacadas son un candil, motivan mas que el fusil. Las palabras siguen, no se puede el rio parar, no. No para nunca, nunca; arrasa todo, grita, su himno a la libertad. Te recuerda Amanda, Todas la Amandas en flor, recuerdaran a su cantor; Los tiranos pasan, los poetas siguen de pie, no se asesina la fé. Las palabras siguen, no se puede el rio parar. Tu canto es un rio, que baja bravio camino a la libertad.”

Prece a Victor Jara (livre tradução)

Firme como os Andes (Cordilheira), duro como foi teu final; gesto vital, tua canção. Tuas mãos não morrem: esmagadas são um candeeiro, motivam mais que o fuzil. As palavras seguem, não se pode o rio parar, não. Não para nunca, nunca; arrasa tudo, grita, seu hino à liberdade. Te recorda Amanda, Todas as Amandas em flor, relembrarão seu cantor; Os tiranos passam, os poetas seguem de pé, não se assassina a fé. As palavras seguem, não se pode o rio parar. Teu canto é um rio, que desce indomavelmente a estrada, caminho à liberdade.

6 Comentários

Arquivado em CONTO E MOSTRO

6 respostas para AS FERIDAS ABERTAS DA AMÉRICA LATINA: O 11/09/1973 NO CHILE

  1. marcos vinicio

    Eu também lamento profundamente por todas as vítimas do WTC. Mas também lamento pelas vítimas da atual guerra “limpa” da Libia, onde depois de milhares de toneladas de bombas, a midia dominante “dominada e ou amiga dos americanos” não mostram um sequer, das centenas de milhares de vítimas civis, mulheres, crianças inclusive, pra não revoltar a opinião pública mundial. Todos nós sabemos, que o problemas da Libia não é “ditador nenhum”, assim com não foi no Iraque…. o problema é o petróleo que eles querem e vão roubar….Se o problema fosse a respeito de “ditador” eles teriam também que atacar e assassinar os ditadotes da Arábia Saudita, do Iemem, do Bahreim…. Ah” mas estes são amigos e jogam o jogo da direita mundial… então não são
    ditadotes… Alguém prova que o que disse aqui é mentira????

    • sacimula

      Concordo com tudo o que disseste. recentemente, por ironia, postei aqui no blog que Wiliam Bonner havia chamado a rainha da Inglaterra de ditadora, uma vez que eles adoram usar o tempo há que está no poder para rotular (relembre-se o emblemático líder socialista Fidel Castro) de ‘ditador’. Não, não há como provar que suas palavras aqui registradas sejam mentira. Infelizmente.
      Grata pela visita e pelo acréscimo, na linha do que propus em minha lembrança das feridas causadas pelo imperialismo. Seja bem vindo.

  2. Jose Aparecido Gonçalves

    Quando os norte-amercianos acenderem um única vela às vítimas inocentes de suas insanas guerras eu acenderei mina vela às vítimas dos atentados de 11 de setembro.

    • sacimula

      Faço minhas as suas palavras. Há pouco tempo, revelou-se o uso de cobaias humanas, em países cahamados “subdesenvolvidos”, infecadas propositalmente com sífilis e outras doenças, por pesquisadores norteamericanos, nos anos 40. Alguém foi “reparado” (se é que há reparação)? Não. Houve um discreto pedido oficial de perdão.
      Agradeço-lhe pela visita e comentário no blog. Seja vem vindo.

  3. ROBERTO PRIMO

    Aqui faz, aqui se paga!!!

    • sacimula

      Pois é, o governo norteamericano provoca, invade, destroça nações. Deve estar atento, pra não chorar depois. Obrigada por visitar e postar no blog. Seja bem vindo!

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