QUE SAUDADES DO ÁUREO E DA PIRULITONA!

Faz tempo que a Groba ensaia, anuncia, tenta, mas deixa morrer na praia um desfecho realista para seus personagens gays nas novelas. Anos faz, com olhar de pesquisadora, estive atenta à forma como trata os temas sociais e mais precisamente as relações entre pobres e ricos.

Com pessimismo, conclui que a descontextualização de fatos históricos, a naturalização das desigualdades e a reprodução de estereótipos que glorificam a riqueza, a busca da ascensão social, nos moldes da sociedade vigente, amarram até mesmo (ou principalmente) as tramas anunciadas como ‘retratos fiéis’ da luta por reforma agrária, da trajetória sofrida dos imigrantes, das mazelas da escravidão. Que a deformação, o desenho caricato e/ou ultrasimplificado de pertinentes temáticas sociais, ao sabor da liberdade irrestrita das ‘obras’ de ficção, reforçam-nas mais do que as desvendam ou denunciam.

 

Não sei se o mesmo se dá no que se refere à abordagem da homossexualidade e não teria referências suficientes para fechar questão a respeito. Só sei que o pouco que assisti ‘Morde e Assopra’, foi em função dos carismáticos Áureo e Elaine (Pirulitona). A aparente inverosimilhança de cada um deles – o primeiro é homossexual, mas engravidou a atraente melhor amiga, o segundo, heterossexual, traveste-se de mulher para fugir das ‘garras da lei’ e, em que pese desajeitado e teatral, seduz ao menos dois solteiros, em aberta disputa por seu ‘coração’ – parece abrir idealmente o caminho para a compreensão de que o universo da sexualidade não segue, necessariamente, tipificações previsíveis, num conjunto limitado de possibilidades.

 

Da aparente falta de pretensões, eis que brotam as condições ideais para que, no último capítulo, não tenham sido necessárias ‘conversões’ desses personagens, nem dos que por eles se apaixonaram, em viadinhos discretos e solitários ou super machões que pegam mulher. Com claras referências ao cinema, particularmente o filme ‘Priscila, a rainha do deserto’ e ao som de Glória Gaynor, o que dispensa diálogos, o desfecho não poderia ser melhor.

 

O palco, o glamour, o brincar de viver encontram abrigo no aplauso e na alegria da platéia; simbolicamente, tabus e preconceitos podem ser quebrados quando ninguém se leva tão a sério a ponto de precisar patrulhar a vida alheia e, de outro lado, o senso comum, com seu peso avassalador, nem sempre é capaz de aniquilar a essência ou os desejos de quem quer que seja. Áureo e Elaine me divertiram e me despertaram, caricatos ou reais, deixarão saudades. I Will survive?!

2 Comentários

Arquivado em CONTO E MOSTRO

2 respostas para QUE SAUDADES DO ÁUREO E DA PIRULITONA!

  1. José Raimundo Carneiro

    você faz uma análise certa,deste ,reacionário meio de confusão. um forte abraço.

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