Há 15 anos Campinas quer saber: quem matou o prefeito?

O noticiário da noite de 10 de setembro de 2001 não condizia com a suavidade que a temporada pré-primaveril coloria o céu das tardes em Campinas. Como um corte frio, sem volta nem nuances, anunciava: o prefeito Antonio da Costa Santos, o Toninho do PT, fora encontrado morto a tiros no interior de seu carro.

O dia que se seguiu, pelo acontecimento de repercussão internacional, nos EUA, foi de transe. Grande parte da população não faria o cotidianamente esperado, optando por engrossar um perplexo e comovido adeus à carismática e ousada autoridade recém aniquilada. Incrédulos e inconsoláveis estavam todos os que o acompanharam ao longo de sua militância, com destaque para a corajosa atitude de enfrentamento, quando, na condição de vice-prefeito e secretário de obras, não se furtou a denunciar, em 1991, os desvios de rumo do governo eleito por seu partido, para dirigir a cidade, em 1988: abandonou seus cargos, após denunciar superfaturamento em contratos, que fizeram Jacó Bittar – um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores – corar diante da cidade e ir se abrigar noutra legenda.

O episódio destroçou parcela importante da esquerda na cidade

Um gesto necessário, com custo político alto a se pagar. E a sucessão de prefeitos do campo político-partidário conservador que se beneficiaria, a partir de então, é apenas um indicativo do retrocesso que atingiria Campinas, antes, orgulhosa por ter sido cidade oposicionista ao longo da ditadura militar, onde nunca se elegeu prefeito da “Arena”. O Bittar do PDT ou do PSB nunca mais seria bem visto – por sua própria obra, convertido em “vilão” – pouquíssimo tempo depois, revelar-se-ia sem fôlego para retornar à linha de frente na vida política. Já o arquiteto sonhador e persistente, passada uma década, ganhara mais que a aura de político ético e comprometido com as causas sociais, com as parcelas pobres da cidade rica. Ao vencer as eleições em 2000, com 59,7% dos votos válidos, quase ninguém se lembrava dele como o vice de Bittar. Encarnava a esquerda renovada, atuante e esperançosa, cansada de gestões municipais alinhadas às elites e fiéis à voga neoliberal. Quem assistiu à finalização da contagem de votos no Ginásio da Unicamp e viu o eleito em meio a bandeiras vermelhas e verde-amarelas, carregado por tantos braços, pela verdadeira multidão que lotava o lugar, mal podia acreditar que agora restava velá-lo.

E a poeira do atentado em 11 de setembro…

tão distante, parece ter encoberto o que acontecia aqui, para sempre. As investigações sobre a morte do prefeito de Campinas não levaram à elucidação do caso; ao contrário, tornaram-na enigmática e inverossímil. O tempo voando, provas evaporando e uma sucessão de contradições, mortes e multiplicação de dúvidas, acompanhadas do decréscimo da credibilidade. Embora o juiz José Henrique Torres, responsável pela primeira denúncia encaminhada pelo Ministério Público, afirmasse não haver provas suficientes para levar a júri Wanderson Nilton de Paula Lima, conhecido como Andinho, prevaleceu o registrado no processo: o traficante fugia da polícia quando disparou contra o carro de Toninho. Motivo: o prefeito dirigia em baixa velocidade, atrapalhando a suposta fuga. Três pessoas acompanhavam Andinho, apurou-se. Logo em seguida, estas foram mortas em um conflito com policiais de Campinas em Caraguatatuba, litoral paulista. Andinho foi preso pelos crimes de sequestro, formação de quadrilha e latrocínio, na Penitenciária de Presidente Bernardes-SP.

Um crime político, lamentável, impune

A família e a maior parte da população rejeitam, desde então, a tese de crime sem motivações políticas. Foram reabertas as investigações, dez anos depois do assassinato, em novembro de 2010, a custo de batalha incansável, encabeçada pela viúva de Toninho. Não basta. Implora-se, até hoje, para que a Polícia Federal assuma as investigações, tal como deveria ter sido há quinze anos, ainda que, obviamente, as condições atuais de se chegar, finalmente, à verdade dos fatos, estejam distantes e diminuídas, pelos implacáveis 15 anos de mistério, impunidade e revolta. E saudades.

“Quem perdeu o trem da história por querer, saiu do juízo sem saber, foi mais um covarde a se esconder, diante de um novo mundo. Quem souber dizer a exata explicação, me diz como pode acontecer, um simples canalha mata um rei, em menos de um segundo. Oh! Minha estrela amiga, por que você não fez a bala parar?” (Canção do novo mundo, Beto Guedes)

(*) Texto revisado pela autora, a partir do original, publicado  no Correio Popular, em 10/09/2011.

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