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Há 15 anos Campinas quer saber: quem matou o prefeito?

O noticiário da noite de 10 de setembro de 2001 não condizia com a suavidade que a temporada pré-primaveril coloria o céu das tardes em Campinas. Como um corte frio, sem volta nem nuances, anunciava: o prefeito Antonio da Costa Santos, o Toninho do PT, fora encontrado morto a tiros no interior de seu carro.

O dia que se seguiu, pelo acontecimento de repercussão internacional, nos EUA, foi de transe. Grande parte da população não faria o cotidianamente esperado, optando por engrossar um perplexo e comovido adeus à carismática e ousada autoridade recém aniquilada. Incrédulos e inconsoláveis estavam todos os que o acompanharam ao longo de sua militância, com destaque para a corajosa atitude de enfrentamento, quando, na condição de vice-prefeito e secretário de obras, não se furtou a denunciar, em 1991, os desvios de rumo do governo eleito por seu partido, para dirigir a cidade, em 1988: abandonou seus cargos, após denunciar superfaturamento em contratos, que fizeram Jacó Bittar – um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores – corar diante da cidade e ir se abrigar noutra legenda.

O episódio destroçou parcela importante da esquerda na cidade

Um gesto necessário, com custo político alto a se pagar. E a sucessão de prefeitos do campo político-partidário conservador que se beneficiaria, a partir de então, é apenas um indicativo do retrocesso que atingiria Campinas, antes, orgulhosa por ter sido cidade oposicionista ao longo da ditadura militar, onde nunca se elegeu prefeito da “Arena”. O Bittar do PDT ou do PSB nunca mais seria bem visto – por sua própria obra, convertido em “vilão” – pouquíssimo tempo depois, revelar-se-ia sem fôlego para retornar à linha de frente na vida política. Já o arquiteto sonhador e persistente, passada uma década, ganhara mais que a aura de político ético e comprometido com as causas sociais, com as parcelas pobres da cidade rica. Ao vencer as eleições em 2000, com 59,7% dos votos válidos, quase ninguém se lembrava dele como o vice de Bittar. Encarnava a esquerda renovada, atuante e esperançosa, cansada de gestões municipais alinhadas às elites e fiéis à voga neoliberal. Quem assistiu à finalização da contagem de votos no Ginásio da Unicamp e viu o eleito em meio a bandeiras vermelhas e verde-amarelas, carregado por tantos braços, pela verdadeira multidão que lotava o lugar, mal podia acreditar que agora restava velá-lo.

E a poeira do atentado em 11 de setembro…

tão distante, parece ter encoberto o que acontecia aqui, para sempre. As investigações sobre a morte do prefeito de Campinas não levaram à elucidação do caso; ao contrário, tornaram-na enigmática e inverossímil. O tempo voando, provas evaporando e uma sucessão de contradições, mortes e multiplicação de dúvidas, acompanhadas do decréscimo da credibilidade. Embora o juiz José Henrique Torres, responsável pela primeira denúncia encaminhada pelo Ministério Público, afirmasse não haver provas suficientes para levar a júri Wanderson Nilton de Paula Lima, conhecido como Andinho, prevaleceu o registrado no processo: o traficante fugia da polícia quando disparou contra o carro de Toninho. Motivo: o prefeito dirigia em baixa velocidade, atrapalhando a suposta fuga. Três pessoas acompanhavam Andinho, apurou-se. Logo em seguida, estas foram mortas em um conflito com policiais de Campinas em Caraguatatuba, litoral paulista. Andinho foi preso pelos crimes de sequestro, formação de quadrilha e latrocínio, na Penitenciária de Presidente Bernardes-SP.

Um crime político, lamentável, impune

A família e a maior parte da população rejeitam, desde então, a tese de crime sem motivações políticas. Foram reabertas as investigações, dez anos depois do assassinato, em novembro de 2010, a custo de batalha incansável, encabeçada pela viúva de Toninho. Não basta. Implora-se, até hoje, para que a Polícia Federal assuma as investigações, tal como deveria ter sido há quinze anos, ainda que, obviamente, as condições atuais de se chegar, finalmente, à verdade dos fatos, estejam distantes e diminuídas, pelos implacáveis 15 anos de mistério, impunidade e revolta. E saudades.

“Quem perdeu o trem da história por querer, saiu do juízo sem saber, foi mais um covarde a se esconder, diante de um novo mundo. Quem souber dizer a exata explicação, me diz como pode acontecer, um simples canalha mata um rei, em menos de um segundo. Oh! Minha estrela amiga, por que você não fez a bala parar?” (Canção do novo mundo, Beto Guedes)

(*) Texto revisado pela autora, a partir do original, publicado  no Correio Popular, em 10/09/2011.

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SE A DIREITA TODA CABE NUMA SÓ CANDIDATURA, PQ MARINA QUERIA MAIS PARTIDOS?

Afinal, nas últimas horas, que milagrosa sutura se fez entre socialistas e neoliberais? Religiosos fanáticos e ateus? Ruralistas e ambientalistas? Defensores dos direitos humanos e defensores dos “humanos direitos”? O fato é que, em poucos dias, a partir da apuração dos votos do primeiro turno de nossas eleições presidenciais, forças políticas ultraconservadoras e confessamente anti direitos sociais, aglutinaram-se a outras, ainda piores e de proposições ainda mais assombrosas, posto que são abertamente contrárias a direitos humanos, consolidados constitucionalmente.

E como é que costuraram, tão rápida e eficazmente, ideários tão contraditórios entre si? Como montar um programa que contemple, simultaneamente, os interesses da militância da liberação da maconha e defensores da pena de morte? Saudosistas da ditadura e exilados políticos? Entre os favoráveis à Lei da Palmada e os contrários aos limites à porrada? Entre o playboy fanfarrão e os discretíssimos crentes? Entre ex-petistas e pró-monarquistas? Usuários da erva e os do rifle?

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Esse fenômeno dos últimos dias era esperado, mas como tendência perniciosa e não como elemento de coerência discursiva. Afinal, havia uma figura que, há pouco, justificava a necessidade de mais um partido (descontente com relação a todas as quase 3 dezenas de siglas existentes) e que, para isso, repetia como um mantra que era preciso superar a bipolaridade Democratas Vs. Republicanos nos EUA, (ops, se é nos States, it´s ok), se, no caso do Brasil, era urgente evitar a repetição da disputa entre o PT e o PSDB. O que mudou para, repentinamente, essa figura que só chegou até aqui por uma fatalidade, achar que cabe “todo mundo” do lado de lá? Se cabia toda a direita num só governo, porque Marina queria tanto um novo partido?

A partir da confirmação do que já se preanunciava – a junção de pastores, coronéis, playboys e santinhas -, multiplicam-se as dúvidas. Com que toque mágico, afinal, colaram os que renegam e abominam as siglas partidárias, aos dos partidos ideologicamente erigidos? Como irão compatibilizar o incomunicável? Como satisfazer os eleitores daquela do “um ovo pra 5” e os dos 5 empregados pra cada filho? Como justificar que a “nova política” começa pela velha troca de cargos, em troca de apoio eleitoral de conveniência?

Houve tanta exigência, por parte do eleitorado e das oposições, ao longo destes 12 anos. Houve todo mundo opinando sobre tudo, questionando, às vésperas da Copa, se o país eleito para sediar o evento internacional deveria fazê-lo. Houve massa na rua não só pelos vinte centavos e deputado reacionário questionando até a cor da vestimenta da presidenta. E agora, ninguém está ao menos curioso sobre como esse Frankenstein ira se movimentar? Onde estão os cronistas da TV, tão sabidos sobre tudo, do jogo de dominó às complexas relações exteriores, para comentar de que modo irão conviver, nessa coalizão de direita, os que já viveram em Cuba ou no Chile socialista e os que amariam morar nos Estados Unidos? A ala apoiada pelos artistas de todos os credos da Bahia e os que mandam tudo o mais para o inferno? E a paixão que não ia mais se calar: libera o beijo em público ou cura todos os gays? Os baluartes da ética aceitaram os campeões da ficha suja? As mulheres reconhecidas pelo eleitor como defensoras dos sem-terra e seringueiros perdoaram os coronéis que se “notabilizaram” diante dos que aplaudem o extermínio de quem quer reforma agrária? Os que já representaram o expoente das lutas pela igualdade racial brindaram a vitória junto aos que acham o trabalho escravo ‘natural’?

Não sei, não sei. Mas não quero ver no que isso vai dar. Muito menos quero pagar para ver!

Esquisito, esquisito… junta tudo num palanque, pra coxinha achar bonito?

2 Comentários

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Beijo de novela para curar a homofobia #FelixPoderosoSoberano

A novela Amor à vida, do fabuloso Walcyr Carrasco, teve praticamente todo tipo de ódio e desamor: traições, deslealdades, assassinatos, sabotagem, chantagem, gente vendendo o corpo em BBB, programa de auditório ou de formas mais tradicionalmente assumidas como prostituição, disputas entre amigos e familiares por cargos, privilégios, propriedades, sequestros, erros médicos, corrupção (de funcionários do hospital e outras empresas, em função de benesses), mentiras e trapaças de todo tipo.
E o final, em que – pela primeira vez numa novela ‘das oito’ – um beijo entre dois homens foi levado ao ar, às 23h10, pode gerar reações de desaprovação. Daí, há que se indagar: implicar com um beijo de amor? Pois que venham muitos beijos de amor, na ficção televisiva e principalmente na realidade. Quem tem que mudar são essas ‘pessoas’ que sentem nojo do amor. Tiro na hipocrisia.
A emissora – a conservadora e nefasta Rede Globo – não pode negar o arrojado desfecho. Que, diga-se, foi mérito do Walcyr. E, obviamente, dos grandes atores que interpretaram Felix e Carneirinho, e que tornaram o casal carismático, com suas excepcionais interpretações. Eu amei a bondade desmedida do Carneirinho, que melhorou o recalcado e carente Félix.
beijo gay

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Retrospectiva 2013 by Sacimula

Saci e Mula sem cabeça tinham prometido que a fé no 13, havia de resultar num ano de sorte.
AA_FACHADABOATEKISS
Tudo foi mal, naquele trágico incêndio na Boate Kiss. Um país que abre o ano velando jovens mortos, por imprudência de empresários das baladas e ineficiência do poder público, precisava literalmente se refazer das cinzas, para merecer crédito, quanto à capacidade de antever e evitar tragédias.
AA_DILMACHORASANTAMARIA
Sede do encontro de jovens católicos, da visita do Papa Argentino, em julho, essa fé num Brasil que abraça a juventude, a liberdade e diversidade de credos, plantou uma flor.
AA_papavisitaobrasil
Mas foi o fanatismo religioso que, numa de suas nefastas demonstrações de poder, abalou e feriu as tão caras convicções e batalhas por um mundo mais igual. A ‘cura gay’, ressuscitando o âmago da Inquisição do Santo Ofício, demorou a ser curada. O Estado anda pouco laico e deixa muito louco (do mal) ditar o que se pode ou não. Precisou o ano caminhar para o final para nos livrar do mal. Somente em dezembro, a Comissão de Direitos Humanos e Minorias se viu livre de Marcos Feliciano, deputado ultra conservador e representante do que há de pior, de mais corrosivamente preconceituoso, possa haver na interpretação dogmática e autoritária do Evangelho.
AA_marcofelicianocuragay
E quando parece que ninguém tá vendo, eis que nos vemos no centro da situação. Confirmado: como temos armas de destruição da fome em massa, Obama espiona o Brasil. Ele deve ter visto muita coisa, do pré-sal ao petróleo; do jogo do bicho ao bicho de pé. Tio Sam não ficou impune. Dilma desistiu de ir aos EUA, botou a boca no mundo. O bicho pegou!
AA_Obama-Espiona-Dilma
E a juventude não tolerou o aumento do busão. Não era pelos 20 centavos. Mas era, também contra os 20 centavos. Os meios de transportes utilizados pela maioria da população são caros, se for considerado o nível de desconforto.
AA_naoepelos20dentavos
E a polícia mais violenta contra movimentos sociais, tem sido (disparado!), a do Estado de São Paulo. A repressão ao protesto estudantil foi tão violenta que acabou encontrando resposta a altura.
AA_spray de pimenta
Os cenários urbanos em completo caos e destruição, iniciados em São Paulo e repetidos por toda parte, por mais de um mês, causaram e ainda causam perplexidade, merecem análise atenta, comportam interpretações diversas. Mas revelam que o nível de participação ativa na política se ampliou. Bom para os ideais democráticos, mas melhor ainda para servir de termômetro da capacidade de superação dos problemas, sob a égide da justiça e da liberdade. Milhares se manifestaram no Palácio do Planalto. Ruidosamente. Ninguém saiu ferido por excessos da força policial.
AA_protesto-brasilia1
Em São Paulo, a ira popular manifesta no meio do ano, contra o aumento no preço da passagem, viria se justificar ainda mais e a merecer repercussão e indignação geral, uma vez que, a partir de denúncia iniciada no âmbito de uma mega empresa internacional – a SIEMENS – revelou-se que as autoridades do Estado mais rico da federação passaram as últimas 2 décadas roubando dinheiro do Metrô. Pois é, não era só pelos 20 centavos. Era pelos 20 anos de violência policial, descaso com a educação e a saúde e roubalheira encoberta e blindada que São Paulo, desmerecidamente, suporta.
AA_cratera do metro
E a indignação seletiva diante da corrupção, operada de forma cada vez mais evidente, por parte das grandes empresas de comunicação, teve enfrentamento inédito, por parte dos movimentos sociais. A Rede Globo se torna cada vez mais óbvia e em 2013, bateu seu próprio recorde, anunciando o óbvio ululante: sim, ela admite que apoiou a ditadura. Os protestos contra a velha imprensa, sintetizados no ato público nas sedes dessa emissora – sendo o mais significativo, o da apoteótica “homenagem” à fachada do prédio, que recebeu “adubagem”- foram o corolário do que as redes sociais e seus blogs “sujos” têm possibilitado, em termos de reação à manipulação da informação.
AA_fachadadaglobocom merda
A contra ofensiva também marcou 2013. O pensamento progressista quer o marco regulatório. As grandes empresas desejam repor sob seu controle a sua velha, gasta e abominável ação monopolizante. Criar candidaturas anti populares, mas com cara de super-heróis do povo, tem sido um clássico dessa velha imprensa que, em que pese gasta e torta, parece longe de afundar ou desistir. Em 2013, um Juiz carrasco e um Senador mineiro da oposição foram os queridinhos da mídia conservadora.
Cerimônia de entrega da Medalha da Inconfidência
Mas isso não durou, ao menos, em seu invólucro de proteção ‘natural’. Notoriamente, foi o ano em que o que era pó ao pó voltou.
AA_ao po o que é do po
Tanto Joaquim Barbosa, quanto o deputado dono de um helicóptero flagrado carregando quase meia tonelada de cocaína, haviam sido condecorados com medalhas por Aécio Neves, pré-candidato da oposição às eleições de 2014.
AA_helicoptero-do-po
Medalhas e medalhas… O Brasil teve um dos seus melhores anos, no esporte. E sob vais e aplausos, prepara-se para ser o país da Copa. A vitória na Copa das Confederações deu o tom de nossa maturidade. Somos, mais que nunca, o país do futebol. Mas essa chancela, ora nos serve como motivo de orgulho. Se ela já foi sinônimo de ofensa, se já significou a forma injusta de rotular nosso povo como anestesiado, conformista, passivo em relação aos seus direitos e em nome da fé cega no futebol, provado ficou que isso foi sempre um falso dilema e um rótulo descabido.
AA_copadasconfederações
A paixão pelo futebol não é motivo de passividade maior, nem menor, nem esclarece a apatia política. Não gostar do esporte não faz de ninguém um Che Guevara aguerrido. Do mesmo modo, as manifestações ruidosas que se espalharam pelo Brasil, a exigir das autoridades e demais setores sociais, educação e saúde com padrão FIFA, confirmam a vocação brasileira: a mão que toca o violão, se for preciso, faz a guerra.
AA_copa2014
Desejo a todos, um 2014 de PAZ.
Grata aos que acompanham nosso blog, Saci & Mula colocam-se, desde sempre, na torcida por um ano de imensas conquistas sociais e alegrias. Um ano à altura e do tamanho do Brasil.

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Arquivado em CONTO E MOSTRO, JORNALISMO BOZO, MULA PUXA PAPO COM SACI..., PERERÊ CONTOU PRA SEM CABEÇA

Se o Ministro Joaquim Barbosa me concedesse uma entrevista…

Estou pautada pela impressão de que o processo foi brando, afinal, há indícios de que poderia ter sentenciado mais pessoas, inúmeras instituições, bem como ter se intensificado, buscando, para o Estado, alguma indenização e ressarcimento, caso algum dinheiro público tenha entrado nas supostas ou comprovadas transações. Se o Ministro Joaquim Barbosa me concedesse uma entrevista…

É óbvio que isso jamais aconteceria. O capitão do mato já humilhou e prejudicou até jornalista a serviço do PIG, imagine se ele concordaria em responder minhas questões! Mas sonhar não custa nada. Montei um breve rol de dúvidas.

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Seguem minhas inquietações:

A “síntese apertada” do processo seria a investigação de denúncia de compra de votos com dinheiro de caixa dois de campanha eleitoral. Logo, o senhor poderia explicar porque as linhas de investigação tomaram rumos estranhos ao que demandou inicialmente o processo?

Quem comprou votos? De quem? Quanto foi pago? Qual a origem primária do total pago? Quais caminhos, esse dinheiro percorreu? E pela ação e/ou omissão de quantas e de quais pessoas? Porque nem todos os envolvidos foram investigados e sentenciados?

Porque o repasse de Marcos Valério, pelo Visanet, à Rede Globo, ficou de fora das investigações? O publicitário foi sentenciado à prisão, inclusive, por lavagem de dinheiro. Esse repasse, em que pese a forma de publicidade, não seria parte da operação de lavagem?

A excessiva atenção às pessoas ligadas ao PT, em detrimento da investigação sobre os que receberam dinheiro para mudar seu voto no Congresso, teria comprometido os rumos das investigações. O senhor desmontaria essa convicção, com que argumentos?

Além disso, a fragilidade do Judiciário frente à nítida demanda pré-eleitoral, por parte da oposição ao governo e pela grande imprensa, teriam degenerado todo o processo. Como o senhor apagaria essa impressão?

Porque a Visanet figurou como entidade abstrata, sem que fossem referidos e nem julgadas as pessoas que agiram em nome da Visanet?

Ao contrário de pessoas ligadas ao PT que, pelo simples fato de presidirem o partido à época das supostas ocorrências, foram sentenciadas à prisão? Pode-se afirmar que o princípio da isonomia de tratamento aos investigados não foi desrespeitado?

Que instituições privadas participaram, além da Visanet?

Qual a participação das instituições partidárias (uma vez que se tratou de denúncia de compra de votos)?

Outro ponto de extrema importância, talvez a maior dentre outros aspectos, parece-me ter sido deixada completamente de lado. Se as denúncias foram de compra de apoio de parlamentares, por parte do partido do governo, o senhor não achou importante investigar e revelar quais projetos, leis, decreto, emendas?

Tanto quanto oferecer sentença de prisão, não teria sido importante saber o que, exata e detalhadamente, foi obtido em troca de dinheiro?

O eleitor não teria o direito de saber se o deputado em quem votou “traiu” suas promessas de campanha, em troca de dinheiro, recebido dos supostos operadores de um esquema de compra de votos no Congresso?

Por que faltou investigação sobre essa peça central, que é sustentáculo da soberania do eleitor? Ou, acaso, o senhor não concorda que o cidadão é a principal razão de ser e o maior interessado, em tudo o que se decide e de que forma é decidido, na esfera do Parlamento?

Os projetos aprovados sob a égide desse suposto esquema não configuram ilegalidade? Não seria possível afirmar que uma votação obtida pela compra de parlamentares constitui fraude ao sistema político vigente?
No caso da compra de votos ter-se efetuado para possibilitar a aprovação de um projeto de largo alcance social, como obras do PAC, PROUNI, BOLSA FAMÍLIA, MINHA CASA-MINHA VIDA, os investimentos e benefícios teriam que ser anulados? Como se daria essa anulação?

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No caso do cumprimento das sentenças no feriado de 15 de Novembro, por que alguns réus foram condenados a regime semi aberto, mas correm risco de ter que cumprir no regime fechado?

Isso não poderá gerar uma demanda lesiva ao estado brasileiro? Isso não pode gerar gastos (caso vençam uma ação indenizatória contra o Estado, por descumprir os direitos dos réus)? Não poderá gerar desgaste interno e internacional à imagem de nosso poder legislativo?

Estamos às vésperas de abrigar um evento internacional de grande porte. A confiabilidade em nosso sistema de poder executivo está em destaque. Mas e quanto ao legislativo? Não seria o momento em que precisaríamos exibir o quanto ele é avançado e impecável?

Nessa mesma linha, não é danoso à imagem da justiça brasileira perante o fato de a Suíça ter condenado funcionários da Siemens por corrupção e, no Brasil, o maior interessado, tenham sido abafadas, pelo judiciário e pela grande imprensa, as gravíssimas ocorrências, envolvendo desvio de verba pública por governantes e executivos, da ordem de bilhões?

O senhor não acha grave a já constatada evasão de parte dessas divisas para paraísos fiscais? A impunidade dos envolvidos e, por consequência, a desobrigação em resgatar do exterior o dinheiro roubado não lhe incomodam a consciência? Sente-se honrando o cargo que ocupa?

Para além da preocupação com a imagem pública do poder legislativo, da respeitável pasta que o senhor chefia, não há uma crise de consciência, diante das elevadas demandas sociais por saúde e educação, ao passo que, bastando um gesto do senhor, todo esse dinheiro teria que ser devolvido ao povo paulista?

Não lhe causa espécie o fato de que as mais consistentes mobilizações sociais em nosso país, em 2013, tenham ocorrido a partir das reivindicações por melhorias no transporte público e, por irônica coincidência, o escândalo do desvio de dinheiro (que vem sendo abafado) tenha [como “cofre arrombado”] exatamente uma companhia de transporte público, a CPTM?

No caso da velocidade impressa a essa etapa emblemática, a das sentenças de prisão e, ainda, o evidente trabalho no feriado, faz-me refletir sobre os brasileiros que aguardam durante décadas por um resultado de processo na Justiça.
Afinal, algo pode ser feito para que a justiça brasileira deixe de ser morosa? O que falta e, para que não mais falte, o que um ministro da justiça deve fazer?

A suspensão de feriados para funcionários do Judiciário poderia ser uma forma de acelerar o julgamento de processos, nas mais diferentes varas, beneficiando esses brasileiros, cujas vidas poderiam ser positivamente transformadas, diante de resultados longamente aguardados?

(Destaco alguns exemplos: julgamento de plano de saúde descumprido, comprometendo ainda mais uma doença grave; denúncias de erro médico; cumprimento de sentença sem ter sido comprovada culpa; indenização por acidente de trabalho etc.)

Roberto Jeferson, o único réu confesso, não foi preso nesse momento em que as atenções para o fato são mais evidentes. Qual o porquê?

A Rede Globo acaba de confirmar seu apoio à ditadura militar 1964-1985. Zé Dirceu e José Genoíno foram presos e exilados pelo regime militar. O julgamento da Ação Penal 470 teve inédito destaque pelo jornalismo da empresa Globo. O senhor não se sente instrumento de uma espécie de revanchismo?

O senhor não vê incompatibilidade ou, melhor dizendo (para usar uma expressão bastante cara aos defensores da autonomia entre os poderes e, também, em relação ao poder da grande imprensa), não vê uma situação de conflito de interesses, sendo pai de um funcionário da Rede Globo, e continuar exercendo a função de ministro?

Se a Rede Globo funciona com base em concessão pública, com papel inegável na formação de opinião pública (lidera a audiência, sobretudo com seu telejornalismo), não configura troca de favores ou compadrio, empregar um parente de Ministro?

No serviço público em geral, como investigar e corrigir, diante da suspeita de “nepotismo cruzado” (quando uma autoridade, impedida de dar emprego a parentes, lança mão da contratação do parente de outra autoridade, desde que essa beneficiada lhe retribua proporcional favor)?

Sobre a sonegação da Rede Globo. O senhor não se sente desmoralizado diante da opinião pública, que, graças às redes sociais, não esgota sua curiosidade sobre os temas com base na grande imprensa?

É sabido e comprovado que a Rede Globo sofre processo por sonegação fiscal e, também, que uma peça fundamental de processo contra a empresa desapareceu dos arquivos. Esse tragicômico episódio não traria o risco de nosso sistema jurídico parecer muito amador e sujeito ao furto de documentos importantes? Não poderíamos, jocosamente, ser chamados de país em que o setor judicial é comparável às tramas das novelas produzidas pela Rede Globo de Televisão?

Em alguma circunstância, o senhor se candidataria à presidência da República?

Sem mais perguntas. Ou melhor: CEM mais perguntas, eu faria. Se o senhor pudesse me ouvir, (e sem tentar me calar, POR CLEMÊNCIA!).

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O DIA EM QUE A LIBERDADE HUMILHOU A DEMOCRACIA

Réus de um conturbado julgamento, com alarde inédito pela mídia conservadora, entregam-se à Polícia Federal, após decretada sua prisão.
Nunca antes, na história deste país, houve maior certificado de garantia de que as instituições jurídicas e as empresas de jornalismo – em que pese seus inegáveis e gravíssimos equívocos – gozam de irrestrita liberdade de ação. O que, talvez, seja a maior demonstração de que ambas têm abusado disso, corroendo o ideal democrático que deveriam celebrar.

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Historicamente, a liberdade irrestrita tem sido o emblemático escudo das tiranias; ao se sobrepor à igualdade e à fraternidade, abafa-lhes e inviabiliza.
É vergonhoso admitir que o abuso da liberdade pela velha ‘mídia’ vem impondo lamentáveis ataques à democracia no Brasil. No lugar de informar, ela promove sistemática e impunemente o linchamento moral, prejulga, aniquila quem lhe desafia. E tem como aliados, incontáveis juízes, que lhes são reféns.
Solidarizo-me com o Partido dos Trabalhadores, neste triste dia.

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MAS QUEM VOTARIA EM MARINA, AFINAL?

O PT tava ruim pra Marina, que o deixou fazendo estardalhaço, militante “histórica”, que era, e ocupando ministério. O que se previa? Uma crítica de esquerda e a soma de forças a uma sigla idem. Mas ela foi candidata pelo PV. Ainda assim, muita gente de esquerda votou nela em 2010, como se sua ida pro reduto [outrora ecologista] fosse conferir a tal ninho ares mais arrojados, maior espaço para superar [supostamente] o que ficara ultrapassado e envelhecido no PT. Mas sua faceta evangélica espantou boa parte desses que votaram; muitos se autodefinindo como incautos, arrependidos. Agora, ela expõe a incapacidade de tornar partido a sua rede, indicando que a sua capacidade de levantar a arquibancada, já não tem a força de candidata que levou as eleições de 2010 para o segundo turno. E pra confundir os biógrafos (só pode ser!), ela ainda mergulha no PSB, justamente um partido que pertence à base aliada do governo do PT, que ela abandonou. Afinal, quem é o eleitorado dum troço desses?

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Deixando de lado a figura política de Marina e ampliando o olhar para o espectro político que se rearticula, há razões para otimismo. Volta-se ao núcleo central de sustentação da primeira candidatura de esquerda, na primeira eleição direta para presidente no pós ditadura: a da Frente Brasil Popular (PT, PCdoB e PSB).
Eu torço para que a disputa principal fique entre PT+PCdoB versus PSB de Luiza Erundina e Marina (ambas, mulheres que se popularizaram e se notabilizaram graças à militância no PT). Se assim fosse, uma situação inédita no Brasil, que teria como candidaturas mais populares, essas siglas e/ou personalidades que – decididamente – não podem receber outra classificação senão centro-esquerda. Infelizmente, essas “águas” todas andam turvas e minha utopia soa ingenuidade pura… Mas resta o sonho. E o “empurrãozinho” da militância nas ruas.
Se a militância e os marqueteiros de ambas as candidaturas observarem um mínimo de politização, ou uma espécie de pacto (no que se refere ao nível do debate político), a sociedade brasileira poderá estar livre do nível esgoto que temos quando é PT versus tucano (tipo: não vote no Lula porque ele é analfabeto e tem só 9 dedos nas mãos; a Dilma é sapatão, aborteira e terrorista, o problema desse governo foi a corrupção e o bolsa esmola etc. etc. etc.). Oremos! rssss. No mais, qualquer das duas candidaturas que vença, não creio ser difícil um pacto para um governo de coalizão, reunindo todos contra o retrocesso.
Outro ineditismo que não poderia ficar despercebido: dentre os personagens centrais dessa disputa, o mulherio se destaca. Dilma, Luiza Erundina e Marina. É lindo de viver!

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AS FERIDAS ABERTAS DA AMÉRICA LATINA: O 11/09/1973 NO CHILE

Depois de ter as mãos esmagadas a coronhadas, Victor Jara ouviria do oficial que dava ordens aos torturadores: “¡A ver si ahora vas a tocar la guitarra, comunista de mierda!”. O golpe militar liderado pelo General Augusto Pinochet flagraria o Presidente socialista Salvador Allende no Palácio Presidencial de La Moneda. Acossado por tropa militar pronta para o bombardeio à sede do governo, naquele 11 de setembro de 1973, escolheu, ali mesmo, o suicídio a se render. Victor Jara, 40 anos, integrante do Partido Comunista do Chile e embaixador cultural do Governo da Unidade Popular, foi surpeendido pelo bando armado na Universidade, onde lecionava jornalismo; contribuia notoriamente para consolidar o socialismo, como músico, cantor, teatrólogo e ativista político.

Levado como milhares, naquele dia, para campos de futebol, convertidos, então, em presídios assolados por show de horrores, seria longamente supliciado fisica, moral e psicologicamente. As bárbaras torturas perpetradas contra o povo chileno, que militava em prol do socialismo no poder, no caso de Victor Jara, transboradavam o ódio remoído pela corja fardada, patrocinada pelo Pentágono no auge da guerra fria; tinham sabor de punição exemplar e de revanchismo à sua arte, popularidade e ousada convicção. Por razão óbvia: tudo nesse herói popular estava emblematicamente voltado ao fim da desigualdade e sintetizava a força e ternura conquistadas naquela nação, rumo à construção do sonho anti-capitalista. No teatro, desde meados dos anos 50, Jara já imprimira suas convicções, dirigindo peças voltadas à conscientização política e à popularização da arte dramática. Mesmo antes da chegada de Allende ao poder, já atuava comprometido definitivamente com a causa socialista, com a envergadura de quem havia posto em primeiro plano as canções de protesto e o movimento ‘Nueva Cancion’, que dava relevo ao que genuinamente representava a cultura musical chilena. Ele fora o vencedor do Primero Festival da Nova Canção Chilena, em 1969, com ‘Plegaria a un labrador’, em que, na forma de prece, tece o sofrimento e a fé em dias melhores, almejados pelo campesinato. E o faz com conhecimento de causa, tendo ele próprio nascido de família pobre de trabalhadores no campo, geradores de riqueza, provedores diretos de alimentos, e paradoxalmente, explorados e miseráveis, onde quer que reine a sociedade movida pelo lucro.

Te recuerdo, Amanda’, outra canção premiada e muito popular, que já no título homenageia sua mãe, que tinha esse nome, denuncia em forma de poesia, as condições duramente suportadas por trabalhadores chilenos, muitos deles expostos à fatalidade – como o clássico caso de trabalhadores em minas, os carvoeiros: “Te recordo, Amanda, A rua molhada. Correndo à fábrica Onde trabalhava Manuel. O sorriso largo. A chuva no cabelo. Não importava nada. Você foi ao encontro dele. Com ele, com ele, com ele, com ele. Que partiu para a serra. Que nunca cometeu erros. Que partiu para a serra, e em cinco minutos foi destruído. Soa a sirene, de volta ao trabalho. Muitos não voltarão, tampouco Manuel.” (traduzido do original, em espanhol).  

Por longos 5 dias e noites foi torturado, no Estádio Chile, que atualmente leva seu nome, antes de ser assassinado, em 16 de setembro de 1973, e ter seu cadáver, desfigurado, atirado na rua, em bairro da periferia de Santiago. À viúva caberia o reconhecimento do corpo e as providências para um enterro realizado em meio ao medo e ao nevoeiro que se espalhavam pelo país e que encobriam de modo particularmente cinzento a capital. O jornal El País [‘La muerte lenta de Víctor Jara’], em 2009, trouxe testemunhos inéditos a respeito desses acontecimentos, na ocasião em que houve a exumação de cadáver do Presidente Allende e de outras vítimas da repressão política e no Chile reascendia-se a discussão sobre os anos de chumbo.

O Chile figura como uma experiência excepcional, posto que o governo era ocupado, na ocasião do golpe militar, por partidários do socialismo. Mas a América Latina toda – o Brasil, desde 1964 – a partir de algum daqueles tristes anos entre a década de 60 e início da de 70, experimentaria o terrorismo de Estado, sob as esmagadoras botas de generais. Em todos esses países, pseudo-democracias sustentadas pelo governo norteamericano e exercidas por militares, calaram o povo e intentaram derrotar o “fantasma” do comunismo, e sob tal pretexto, ultrapassaram – em número e em proporções – todos os limites em direção à barbárie, crueldade e ultraje à dignidade humana, contabilizando crimes que raramente foram examinados e punidos à altura, mesmo após encerradas as respectivas ditaduras. Natural que o povo norteamericano chore o seu 11 de setembro. As minhas lágrimas caem nesta data. Não pelas Torres Gêmeas, mas pelas milhares de atrocidades que caracterizam e sustentam o imperialismo. Choro por Victor Jara e pelo 11 de setembro de 1973 no Chile. Pelas feridas abertas de nossa América Latina.

(*) A canção feita em homenagem a Victor Jara, postada e traduzida logo a seguir, é belíssima, vale a pena ouvi-la:

Plegaria por Victor Jara (Tony Osanah / Enrique Bergen)

“Firme como el Ande, duro como fue tu final; gesto vital, tu canción. Tus manos no mueren: machacadas son un candil, motivan mas que el fusil. Las palabras siguen, no se puede el rio parar, no. No para nunca, nunca; arrasa todo, grita, su himno a la libertad. Te recuerda Amanda, Todas la Amandas en flor, recuerdaran a su cantor; Los tiranos pasan, los poetas siguen de pie, no se asesina la fé. Las palabras siguen, no se puede el rio parar. Tu canto es un rio, que baja bravio camino a la libertad.”

Prece a Victor Jara (livre tradução)

Firme como os Andes (Cordilheira), duro como foi teu final; gesto vital, tua canção. Tuas mãos não morrem: esmagadas são um candeeiro, motivam mais que o fuzil. As palavras seguem, não se pode o rio parar, não. Não para nunca, nunca; arrasa tudo, grita, seu hino à liberdade. Te recorda Amanda, Todas as Amandas em flor, relembrarão seu cantor; Os tiranos passam, os poetas seguem de pé, não se assassina a fé. As palavras seguem, não se pode o rio parar. Teu canto é um rio, que desce indomavelmente a estrada, caminho à liberdade.

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A Globo e a onda de protestos: entre o gozo e o grito histérico

De segunda a terça-feira, quando, com pequenas variações na data ou horário, inúmeros prefeitos, governadores e a Presidente ficaram engessados, diante da impossibilidade tanto de reprimir (pelo risco de exceder na violência), quanto o de passar por incompetente na tarefa de manter a paz, a ordem e a defesa do patrimônio público e privado, contra manifestantes (infiltrados ou insuflados), a Globo teve quase que o completo controle da situação. E o utilizou, de forma abusiva. Até mesmo quem não é especialista em mídia teve a sensação de que as sucessivas reportagens da Globo, para os telejornais, forçaram a mão no terreno do jornalismo interpretativo, deixando espaço nenhum à factualidade.

Ela própria andou incentivando a ida às ruas, rotulando de modo poético, o tal despertar do gigante, – até o louro José e Ana Maria Braga deram boas vindas à juventude que quer mudar o Brasil – pontuando com excessivo didatismo e repetição, quem representava o bem e quem fazia as vezes do mal, nesse inesperado acontecimento.

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Mas neste sábado, tinha jogo do Brasil. Uma multidão protestava nos arredores do Estádio e, confesso, a expectativa era de que, até mesmo o resultado do jogo, poderia mexer com os (até então imprevisíveis) ânimos dos participantes. Junte-se o fato de que os próprios torcedores, presentes ao estádio para ver o jogo, poderiam repentinamente se juntar aos que se aproximavam do local. 

Ao menos durante esses 90 e poucos minutos de duração da partida, foi a vez da Globo ter a sensação de temor e paralisia.

Se ela desistiu de seu intento – qual seja, tomar as rédeas e conduzir segundo sua própria égide as manifestações que  pipocam pelo país, ressignificando seu conteúdo e impondo os contornos, a sua forma – parece-me, a resposta é não.

O recuo tático parece-me momentâneo e está relacionado à subordinação dos interesses da Globo à FIfa, de modo mais geral e, específica e pragmaticamente falando, na precariedade diante de uma emergência, caso a integridade física da equipe de narradores, bem como de jogadores das seleções fosse posta em risco.

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Desistir é um termo forte demais para as forças políticas às quais a Globo empresta a cara, neste momento, que se apresenta como o contexto mais oportuno à manipulação de informação, se considerado todo o período de governo Lula/Dilma.

Nem mesmo o chamado escândalo do mensalão e seu posterior show-julgamento possibilitaram aos setores anti-PT um tal acúmulo de forças, quando as surpreendentes manifestações de rua da semana que passou. 

A possibilidade de inviabilizar a continuidade do governo Dilma, ou, de ao menos roubar-lhe uma fatia generosa do percentual de popularidade, é tentadora demais. E a fórmula inicialmente adotada – jogar lenha na fogueira, para que a estudantada siga fazendo volume e barulho nas ruas, com a sua garra de disposição dignas de causar inveja à velha esquerda – é velha, batida, mas revelou-se poderosa demais para ser abandonada.

Estejamos de prontidão. Ops. Estejamos atentos e com vigor de resistência democrática à altura dos ataques que ela venha a sofrer.

 

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GOLPE CIVIL, TÃO SINISTRO QUANTO GOLPE MILITAR

Diante de esquisitices, no primeiro mês do gov. Dilma, escrevi aqui no blog que PSDB e DEM eram Romeu e Julieta, que apenas fingiriam que morreram, para depois se casar à escondidas, tendo o PMDB como padre. Lá, eu falava de um golpe lento, invisível e sem o barulho das botas dos generais, para que se desse a impressão de que tudo se passava nos quadros de uma democracia…

Na ocasião, eu também indicava que a despolitização das justas ações do governo no plano econômico poderiam ser manipuladas e, ainda, cobrava do PT um zelo pela própria imagem, misturada demais à do PMDB, em minha opinião.

Eu atentava para o fato de que as elites conseguem estigmatizar nomes da esquerda, enquanto nós, a esquerda, não conseguimos pontuar de maneira eficiente, diante da opinião pública, quem são os maiores e verdadeiros vilões contra os interesses dos trabalhadores.

Agora, o governo Dilma tem uma armadilha a desfazer, com todo cuidado, obviamente!

O governo precisa conseguir dar um basta na onda de vandalismo que tem se seguido às manifestações (que começaram com mote muito justo, diga-se de passagem! mas foram e estão sendo paulatinamente apropriadas por setores interessados na desestabilização do governo Dilma, bem como no prejuízo material e moral dos governantes estaduais e municipais alinhados ao governo federal).

É duríssima a tarefa! Muitos manifestantes ainda não compreenderam que sua luta está sendo re-significada, de modo oportunista e, na medida do possível, calculado, orquestrado, tendo a grande imprensa como principal articuladora. Ao lado dessa ingenuidade, os partidos de esquerda também não estão tendo agilidade em encontrar respostas às tentativas de engessamento de sua ação (muitas forças políticas aceitaram tacitamente a ideia autoritária de esconder bandeiras; outros ativistas, exibiram-nas por tola vaidade, mais do que por adequação, num gesto que gera ainda mais clima de provocação e falta de senso de unidade).

Se os protestos gerarem ainda mais prejuízos, desmoralização sobre as condições de governar o país em ambiente de paz – se resultarem em ainda mais presos, feridos ou mortes – estará definitivamente aberto o terreno para que se “justifique” um FORA DILMA.
Até mesmo interesses internacionais teriam discurso na ponta da língua contra o governo brasileiro, afinal, o Brasil sedia a Copa das Confederações, está às vésperas de receber encontro de jovens católicos com o Papa e, em 2014, a Copa do Mundo.

Se Dilma for cassada ou deposta, assume o PMDB. Parece-me claro que esse partido é “elástico” o suficiente para sentir-se agraciado com esse golpe civil. Sairiam do governo PT, PCdoB e PSB e, muito provavelmente, setores do PSDB viriam “agregar esforços” para restabelecer a “ordem” democrática no país.

Num outro cenário, os que de fato presam a democracia, irão assumir a defesa do mandato Dilma, seja na militância blogueira (importantíssima, uma vez que já provou sua eficácia contra as mentiras das grandes empresas de comunicação) e na atuação nos movimentos sociais. Se for pra ir às ruas, que seja em defesa do aprofundamento da democracia: contra a homofobia de Pastor Marcos Feliciano e sua “cura gay”; pela regulamentação dos meios de comunicação (abaixo a libertinagem nas concessões públicas de TV e rádios); pela reforma política, com ênfase para o financiamento público das campanhas eleitorais; pelo aprofundamento das políticas sociais de inclusão.

GOLPE NÃO! VIVA A MAIOR DEMOCRACIA DO MUNDO: A NOSSA: A DE TODOS OS CREDOS E CORES.

Sugiro aos que acompanham meu blog a leitura desse post, que segue no blog:

https://sacimula.wordpress.com/2011/01/30/no-primeiro-mes-da-primeira-presidenta-tempo-nublado/?preview=true&preview_id=186&preview_nonce=5d5ea5f0bf&post_format=standard

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